UMA NOVA CHANCE PARA A VIDA….

Todo dia é especial, poder acordar, levantar, caminhar, entender-se no universo, como um ser humano. Evoluir, crescer espiritualmente, através do amor, ou da dor… com a certeza de que nada acontece por acaso…que Deus tem um propósito para cada um dos seus filhos…, assim segue a história de uma esposa, mãe, avó, irmã, tia, amiga, Salete Pastório da Silva, da pequena cidade de Espumoso, Rio Grande do Sul, relatada, aqui, por sua filha.

“O Natal de 2017, havia passado a poucos dias, recebo uma ligação do meu pai, as 02h00 da manhã, relatando que a minha mãe não estava bem, com mal estar, náuseas e tonturas. Estava quente, levantei da cama, coloquei uma roupa rapidamente e fui até a casa deles, menos de 01 minuto, imediatamente fomos para o hospital, chegando lá, o médico aplicou medicação, e a suspeita era de ter comido algo que não tivesse feito bem, o cheester do Natal, que havia sido esquentado.

Realizando alguns exames, descobrimos que nas glândulas adrienais dos rins, concentravam-se algo anormal, e assim fomos a cidade de Passo Fundo, procurar um Endocrinologista, um senhor simpático, já de certa idade, que após a realização de mais exames, diagnosticou, serem apenas aumentos anormais, sem gravidade.

E assim, seguiu-se, no decorrer de janeiro e fevereiro, com realização de exames e voltas ao médico, porém aos poucos, aquele brilho no olhar e aquela disposição da mãe, foram diminuindo, dando espaço a um olhar distante. No inicio do mês de março, as tonturas se intensificaram, voltando ao médico, recebeu tratamento para Labirintite, porém, já não conseguia mais cozinhar, pelas náuseas, então saia do trabalho e ia direto para a sua casa, fazer o almoço, e cuidar dos afazeres, pois os remédios ainda não haviam surtido resultado, para tanto, havíamos marcado com outro especialista para realizar uma endoscopia, a fim de investigar sobre o sistema digestivo.

No sábado do dia 10 de março de 2018, a noite, após a janta, onde estávamos todos reunidos, em sua casa, e uma semana de intensos cuidados, desci para casa, pois o meu irmão estava lá.

As 11h00 da noite, recebo a notícia, que minha mãe não passou bem, e foi levada quase desacordada ao hospital, pelo meu irmão, meu pai ficou durante a noite acompanhando-a. Ao clarear do dia, estava no hospital para atendê-la, e passamos o domingo entre os cuidados dos médicos do Hospital São Sebastião, da cidade de Espumoso. Neste mesmo dia, havia, em uma chácara perto da cidade, um churrasco de aniversário de um tio, muito querido. E foi este fato que nos mostrou que algo estava errado.

Eram 16h00, minha mãe, comendo o lanche, me olha e diz:

– Nara, nós não vamos amanhã no aniversário do tio Nato né!

Expliquei que o aniversário era hoje e continuamos a conversar. Dez minutos após, a minha mãe, fala exatamente a mesma frase. Daquele momento em diante, como uma boa observadora, passei a identificar sinais de que teria algo muito sério acontecendo. Reservei-me a observar, com fé em Deus.

Segunda-feira, dia 12 de março de 2018, 06h00 da manhã, meu pai chega ao hospital, para que eu pudesse ir trabalhar, minha mãe está dormindo, o convido a sentar-se em uma poltrona, no corredor do hospital, aquele corredor comprido, e ali o preparo para a conversa, que mudaria nosso destino, e relato que, observei minha mãe, nas últimas horas, e que devemos conversar com o médico, pois pode estar ocorrendo algo em seu cérebro.

Acalmei meu pai, e lhe disse, que precisávamos ficar firmes, pois o que viria pela frente não sabíamos. Fui para o trabalho, mas não fiquei, voltando para o hospital. Em questão de horas, minha mãe não caminhou mais sozinha, e não tinha mais noção da realidade. Das 07h00 da manhã até as 11h00, passou a andar de cadeira de rodas, e já não ficava mais sentada sozinha. Algumas pessoas amigas e familiares, vieram vê-la, e em seus olhares, o desespero.

Coincidentemente minha mãe tinha a endoscopia, neste mesmo dia marcada, de manhã, mas não teve condições de realizá-la. Chamamos novamente o médico, que a olhou, descartando AVC, então conversando conosco, solicitou-se uma tomografia do cérebro. Eram 11h30 minutos, quando o resultado saiu, e então, aquele médico tão querido pela família, vem a passos rápidos pelo corredor frio, para, massageia as mãos, nos olha e dá a notícia, de que foi diagnosticado um tumor de grande proporção no lado direito do cérebro da nossa mãe.

O mundo ao seus pés desaba, você fica sem chão, meu pai empalideceu, tremeu, aquele homem do campo, acostumado a segurar todas as tempestades, forte, se vê sem forças. Começamos a organizar juntamente com o médico a transferência urgente para Passo Fundo, no Hospital da Cidade, os demais familiares indicam médicos e prestam o auxílio necessário, e nós, olhamos desabados e ao mesmo tempo firmes, mas com os olhos lagrimejados para a minha mãe, e dizemos que vai ficar tudo bem.

Neste instante, meu pai nos olha, chorando, estático, parado, sem reação e fala:

– Eu não sei o que fazer, vocês me ajudam? Vocês sabem o que fazer? Vocês vão com ela?

Um abraço o envolveu, nosso pai precisava de ajuda, então o acalmamos e o colocamos na condição de cuidar dos que aqui ficavam, seus filhos, e de tentar ficar bem, pois da minha mãe, nós cuidaríamos. Entre as 11h30 e as 12h30, um turbilhão passou por nossa família e amigos que ali estavam. E ela ali, deitada sobre uma cama, inerte aos acontecimentos, em meio ao carinho dos familiares.

Conversar e buscar apoio nas pessoas queridas, conversar com os nossos filhos, e explicar a situação da avó. Foi o tempo de juntar algumas roupas, organizar os que ficariam, entrar na ambulância e seguir.

Fomos na ambulância, com exames em mãos, e o coração destruído. A enfermeira ia conversando com ela, o tempo todo, monitorando seus sinais vitais. Ao chegar no hospital, em menos de um minuto, a equipe do Doutor Alex Roman, já esperando nossa mãe, prestava os primeiros atendimentos, vindo logo após conversar com os filhos.

Após uma bateria de exames, fomos alojados em um quarto, nós, ali, juntos com ela, que já não caminhava, havia perdido em partes a noção da realidade e usava fraldas. A tardinha chegou, a noite, meu irmão foi para casa, pois no outro dia cedo retornava para acertar detalhes com o médico, da cirurgia que aconteceria na quarta-feira, dia 14.

A noite foi longa, em meio a delírios, canseira e dúvidas, pois com as orientações médicas, deveríamos cuidá-la durante a noite, pois poderia entrar em coma e teríamos que fazer a cirurgia as pressas.

O grande medo, o histórico de câncer na família, as três cirurgias anteriores, para retirada de tumores, que até então eram benignos. E agora, o que seria, aquela mulher que fazia exames todo ano, que cuidava-se tanto, ali, sob uma cama, sem noção da vida.

As horas daquela terça-feira estenderam-se vagarosamente. No meio da tarde, vim para casa, ver os filhos e cuidar do meu pai. Onde estava aquele homem forte, preparado para tudo? Encontrei-o sentado, sem atitude, com o olhar distante, com medo.

Chegou a quarta-feira, dia 14 de março, dia da cirurgia, junto com a minha cunhada, acompanhamos a mãe até o bloco cirúrgico, logo após o meio-dia, e lá a deixamos, apenas com um sentimento no coração e na mente “Deus faça pelo melhor para ela”. Meu irmão, minha cunhada, meu pai e eu, quatro pessoas a olhar-se em silêncio, e aos poucos, buscando nas palavras, um sentido para a vida. Quase 18 horas, quando nos chamam, para nos comunicar que a cirurgia ocorreu dentro do previsto, tudo o que o médico previra fazer, ele havia conseguido, porém a médica oncologista que acompanhou, alertou para a necessidade de investigar o tumor.

Um alívio correu em nossos corações, pela notícia do momento, e um pequeno sorriso nos rostos de todos se fez presente. Pedi para que todos fossem embora, pois a jornada seria longa, e deveríamos nos organizar e preparar para o que viria. Não sabíamos como ela acordaria, se nos reconheceria, se saberia quem era, se falaria, se caminharia, mas ela estava viva.

Às 19h30, chamaram um familiar, para vê-la na sala de recuperação, lá estava ela, pálida, cabeça toda enfaixada, mas lúcida, nervosa, assustada, não sabia onde estava, como havia chegado ali, em meio a tantas pessoas, que reclamavam de dor, na recuperação. As 21h30, novamente fui chamada, e neste instante, juntamente com o médico, ela toma um chá, e começa a entender o que está acontecendo, sua recuperação está surpreendendo a todos. Percebo que não foi raspado o seu cabelo, que embaixo das faixas, estão os fios castanhos.

Na quinta-feira, dia 15 de março, nossa mãe retorna ao quarto, no final da tarde, já sem fraldas, porém, não consegue movimentar o lado esquerdo do corpo, encontra-se paralisado, até mesmo ao sentar, cai para o lado esquerdo, as refeições são feitas com auxilio. Lembramos dela sentada, com travesseiros a escorá-la, como uma criancinha de 6 a 8 meses, que esta aprendendo a ter o equilíbrio do corpo e ficar sentadinha.

Os dias passam, nos revezamos entre hospital, estrada, família e trabalho, realizando inúmeros exames, que pesquisavam todo o seu corpo. Mas extremamente felizes. Nossa mãe não se lembrava do domingo até a cirurgia, do que aconteceu, como foi até o presente hospital, mas estava viva.

No sábado, retorno para o hospital, cedo da manhã, para ficar o final de semana, ao chegar, meu pai retornaria para casa, algo me instigava a ir cedo, a chegar logo. E logo após chegar, meu pai se retira e eu entendo o motivo. Uma médica simpática, com um sorriso no rosto, e um jeito manso, entra em nosso quarto. Leio em seu jaleco “Oncologista”, e sutilmente penso, será que é para a outra paciente do quarto, pois havia entrado na noite, e ainda não sabia o motivo da sua internação. Porém escuto a frase:

– Dona Salete Pastório!

Naquele instante, eu sabia, que o maior medo da minha mãe, estava se concretizando. Aquela médica tão tranquila, Doutora Nicoly Taiana Henn, senta-se pertinho dela e inicia uma conversa, dizendo que cuidaria dela, daquele momento em diante. Porém com o olhar me chama para fora do quarto. E ali, ao lado de uma janela, que dava para a praça, toda arborizada, recebo a notícia:

– Tua mãe está com câncer, no pulmão, o tumor no Cérebro era uma metástase, havendo mais duas, uma em cada glândula adrienal dos rins. E o seu tempo de vida, é no máximo um ano.

E você não desaba, fica firme, pois sua família precisa disso, precisa de você. Então se respira, se evita a lágrima nos olhos, e se volta para ao quarto, e se cuida dela. Avisei meu irmão, mas fiz-lhe um pedido especial. Deixa eu preparar o pai, para depois eu contar. E assim foi. O dia passou, o domingo passou.

Entre tantas viagens, revezávamos, meu pai, eu e meu irmão, e quantas vezes se perdeu o rumo, se perdia nos pensamentos, enquanto dirigia a noite, se perdia a noção de tempo e espaço.

Os dias estenderam-se, mais de 15 dias, pois toda vez que o médico tentava retirar a medicação, nossa mãe tinha crises de mal estar e náuseas, até que na terceira vez, ela reagiu, e viemos para casa. Ela estava nascendo de novo, estava voltando para casa, nossa mãe estava de volta.

Chegando em casa, cabeça escorada por um travesseiro, pra não cair para o lado esquerdo, iniciamos outra fase, a de recuperação. A ida ao banheiro, a refeição, o banho, vestir-se, com total dependência de alguém, e o seu constante pedido: quero voltar a caminhar. Movida por esta esperança, e também de ficar saudável, nossa mãe e minhas tias, fizeram um pedido aos Beatos Manuel e Adílio, de que intercedessem pela saúde de nossa mãe, que ela tivesse a graça de voltar a caminhar e ficar bem.

Os próximos dias foram de correria a fisioterapeuta, médicos, hospitais, laboratórios e muitas rezas, e no dia 14 de abril, exatamente um mês após a cirurgia, ela dá os primeiros passos, sozinha, se agarrando na mesa e no sofá. Tantas vezes, todas tardinhas, todos os finais de semana, ao chegar em sua casa, a encontrava-a abatida, com um sorriso pequeno de canto de boca, forçado, mas ali, com a sua garrafinha de água benta.

Com uma fé irredutível, mas entregue ao desânimo, passou-se os próximos meses, internações em Passo Fundo e Porto Alegre, onde realizou o processo de Radiocirurgia no Cérebro, pois no dia do seu aniversário, dia 03 de maio, recebemos a notícia de que, através de exames, os médicos constataram que, já estava criando-se um novo tumor no cérebro, no local da antiga lesão. Novamente repasso a notícia à família e iniciamos os preparativos para a medicação e o procedimento.

Por várias vezes, pelo estado em que encontrava-se, nossa mãe relutou quanto ao tratamento, negando-se, porém com muita conversa, paciência, e justificativas, conseguíamos que aceita-se.

No mês de junho, reclamando de fortes dores no abdômen, internamos em Passo Fundo novamente, e então a médica iniciou o tratamento de Quimioterapia por comprimidos, pois as metástases das glândulas adrienais estavam aumentando. Em uma semana retornávamos para casa.

No mês de setembro, com o lançamento de um novo tratamento, realizou-se duas sessões de quimioterapia na corrente sanguínea, seguidas pelos efeitos das mesmas, e aumentando ainda mais a situação de desgaste emocional e físico, mas intensificando os cuidados do marido, filhos, nora e netos.

Seguindo o tratamento com rotineiros exames, constatou-se no início de 2019, que o tumor do pulmão, quase um ano após a cirurgia, e chegando ao prazo máximo, de vida que a médica havia dado, estava aumentando. Iniciou-se novamente outra etapa de tratamento em Porto Alegre, agora focado no pulmão.

No mês de fevereiro de 2019, finalmente nossa mãe, superando todas as expectativas, acordou para a vida, como ela mesma diz:

– Estou voltando a viver. Graças a Deus!

Hoje, junho de 2019, já passado o prazo de um ano, está feliz, alegre, disposta, faz seu almoço, cuida dos afazeres da casa, passeia e se diverte, com brilho no olhar.

Com a Graça de Deus, pode pagar sua promessa, juntamente com uma das suas irmãs, esteve na 55ª Romaria na cidade de Nonoai, onde também residem seus quatro irmãos. Rezando e agradecendo aos Beatos Manuel e Adílio a graça de ter voltado a caminhar e estar bem.”

 

Dionara Pastório da Silva

Filha de Salete Pastório da Silva, diagnosticada com câncer de pulmão, em tratamento e superação. Hoje Viva!

 

 

 

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